Na última quinta-feira, peguei um avião a caminho de Londrina. A convite da Dechra, empresa inglesa farmacêutica animal, fui fazer a visita na fábrica e entender os próximos passos e anseios para o mercado brasileiro.
Logo na chegada, minha atenção foi para a arte na fachada da fábrica. Cães, gatos, cavalo e boi coloridos desejando boas vindas a todos que se aproximassem. A pintura da artista local Carol Wang (a mesma do Zoológico de São Paulo) traz uma sensação acolhedora, mesmo em um ambiente de fábrica.
A marca chegou ao Brasil há 5 anos, com foco em pequenos animais e cavalos. Apesar de já haver um carro-chefe para bovinos (vacina contra clostridioses), o CEO Global, Jesper Nordengaard, afirma que o Brasil é o país do futuro para animais de pequeno porte. Ainda com portfólio pouco extenso no país, a marca está pronta para trazer uma grande parte dos seus produtos já comercializados em outros países. A maioria com foco em especialidades da medicina veterinária, como dermatologia, cardiologia, clínica de felinos e endocrinologia.
O Brasil foi escolhido para ser o hub de negócios da marca para a América Latina. Quando perguntei o motivo, Jesper respondeu: "Porque não o Brasil? Ainda há muito para onde crescer, onde trabalhar. A taxa de medicalização dos animais é muito baixa. Queremos que mais pets tenham acesso ao atendimento veterinário. Além de ser uma localização estratégica para expandir para outros países" e continuou "o povo e a cultura brasileira também influenciam muito, sempre muito alegres e comprometidos em vestir a camisa da empresa". Mas como seria diferente? Pude acompanhar o anúncio do fechamento do ano fiscal, com R$ 294 milhões de faturamento na região, alta de 17,5% nas receitas e lucratividade 41% maior que a do período anterior. Foram muitos abraços, gritos emocionados e uma linda festa julina para comemorar.
Detalhe: nos bastidores fiquei sabendo que esse feito aconteceu mesmo sem o principal lançamento, que ainda está em aprovação no MAPA.
Aproveitei para questionar como a marca pretende lidar com um mercado veterinário tão desacreditado, com questões de saúde mental e de dificuldade de especialização, frente a uma grande quantidade de formados anualmente. A resposta foi uníssona: "Vamos focar em educação continuada". André Paleari, CEO Brasil explicou que diversas possíveis dificuldades podem ser trabalhadas com a educação dos profissionais, incluindo exigir que toda loja de produto animal ou agropecuária tenha um médico-veterinário para prescrever e aplicar a medicação ou vacina.
Claro que eu pedi spoilers, mas não foi permitido. O que eles puderam me contar foi que virão muitas novidades, com foco em especialidade. Não haverá antiparasitário de longa duração ou medicamentos já comumente usados no mercado veterinário. A ideia é trazer inovação, concorrência, mas principalmente produtos que ajudem na qualidade de vida dos animais.
Por enquanto, somente as vacinas são produzidas no Brasil. O kit de teste de FIV/FELV vem da Coréia e é embalado no Brasil. A medicação otológica não é e nem tem previsão de fabricação por aqui. Talvez os medicamentos em comprimido possam vir a ser produzidos no futuro. Em termos de espaço, pude observar que há muita possibilidade de crescimento. Incluindo a visão para a sustentabilidade, tratando e reutilizando água e agora com aquisição de placas solares para que a fábrica dependa menos da rede da cidade.
Outro pilar importante para a empresa, segundo André, é o bem-estar animal. Não só em termos de medicamentos que ajudem na diminuição de dor e qualidade de vida, mas inclusive com os animais utilizados na pesquisa clínica. A marca mantém um sítio com cavalos para produção de soro antiofídico (contra veneno de cobras). Este soro é vendido para todos país, além de Peru e Argentina, principalmente para gado, mas pode ser utilizado em qualquer animal que foi mordido por cobra.
Agora olha a coincidência! Estava eu, plena e tranquila, quando sou abordada por uma das minhas alunas do MBA em Pesquisa Clínica. Sim, ela trabalha na Dechra exatamente na área de pesquisa. Aproveitamos para conversar muito sobre o bem-estar dos cavalos e o que mais poderíamos fazer para minimizar ao máximo o estresse da manipulação, através do condicionamento, além do enriquecimento ambiental. Eu crente que iria só falar sobre números e negócios, dei um jeito de abordar o tema comportamento animal, mesmo que em animais de pesquisa.
Não sei você, mas eu já estou curiosíssima para descobrir o que mais sairá de Londrina para os animais de toda a América Latina!

