PESQUISA ZERO HORA, SEXTA-FEIRA, 8 DE MARÇO DE 2024 “19
Um retrato do trabalho das mulheres Das mulheres casadas fora do mercado no Estado, 13,4% são devido a atividades domésticas. Entre os homens, só 0,3%
FERNANDA POLO fernanda.polo(ozerohora.com.br Apesar de uma tendência de redução, a desigualdade entre homens e mulheres, no que diz respeito à participação no mercado de trabalho, ainda é grande no Rio Grande do Sul.
Em 2023, 19,7% das mulheres em relações conjugais estavam fora da força de trabalho. Entre os homens, apenas 2,6% não trabalhavam, segundo pesquisa do Pucrs Data Social: Laboratório de Desigualdades, Pobreza e Mercado de Trabalho.
Ao considerar apenas as mulheres afastadas do trabalho por motivos domésticos (como cuidar de filhos, dependentes ou afazeres),
estas totalizavam 13,4% das gaúchas casadas. Os homens, por sua vez, representavam apenas 0,3%.
— Os dados mostram que essa Ideia dos cuidados ainda é predominantemente sobre as mulheres
- aponta Izete Bagolin, professora, pesquisadora do Pucrs Data Social e uma das autoras da pesquisa Levantamento Sobre Gênero, Trabalho e Parentalidade no Rio Grande do Sul.
Tendência O recorte utilizado inclui casais,
em relações heterossexuais, com idade entre 25 e 50 anos, no quarto trimestre de cada ano estudado. A fonte dos dados é a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio Continua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), em sua versão trimestral.
Apesar do cenário, o RS é o Estado onde há menor proporção Como mudar?
* As mulheres vêm conseguindo conquistar melhor remuneração,
o que diminui, aos poucos, a desigualdade salarial, conforme a professora da Pucrs Izete Bagolin.
Porém, para que o cenário mude,
é preciso expandir as políticas públicas de oferta de educação para crianças.
* Além disso, é necessário que as mulheres alcancem maior qualificação para conquistar melhores posições no mercado de trabalho. A economia também precisa se desenvolver mais,
gerando mais empregos —
com melhor remuneração para as mulheres.
z
a E E E E Jaqueline deixou de atuar em um hospital para se dedicar a Maya, que tem síndrome de Down, e Brayan de mulheres casadas fora do mundo de trabalho por motivos domésticos. Para a pesquisadora,
chama atenção a manutenção da diferença em termos de responsabilidade das mulheres:
— Elas saem mais do que os homens do mercado de trabalho,
deixam em razão do cuidado dos filhos. Isso vem se reduzindo. Cada vez, um percentual menor de mulheres precisa deixar a força de trabalho, e esse percentual é menor nos Estados um pouco mais desenvolvidos. Vem caindo,
lentamente, mas a diferença ainda é bastante significativa.
* Leis e regulamentações também são imprescindíveis para que uma cultura igualitária possa surgir,
na opinião da professora Cibele Cheron, doutora em Ciência Política, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) e pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (NIEM-UFRGS).
* Porém, ambas as pesquisadoras defendem ainda uma mudança no padrão de pensamento,
de educação e de cultura na estruturação da sociedade —
mudar o entendimento das regras de gênero e de responsabilidade, explica Izete.
Diferença salarial se impôs como critério A diferença salarial também é uma imposição que leva as mulheres a desistir do trabalho no lugar dos homens. Moradora da Vila Vargas, no bairro São José, em Porto Alegre, Jaqueline Nascimento trabalhou por cinco anos como caixa em um hospital.
Concomitantemente, cursava o Ensino Superior, buscando crescimento na empresa. Quando sua filha Maya nasceu, no entanto, se viu obrigada a largar o emprego para se dedicar a ela,
que tem sindrome de Down, e ao seu filho Brayan, 12 anos.
Influências PRESENÇADEFILHOS
* Aproporção de mulheres fora do mundo do trabalho aumenta com a presença de filhos — em especial,
os mais novos. Prova disso é que entre mulheres com três filhos ou mais, as mais afetadas pela falta de oportunidades, 31,1% estão fora do mercado por motivos domésticos.
* Outro número que a pesquisa mostra é que, quanto mais novo é o filho, mais difícil é para a mulher.
Uma em cada cinco que têm filhos de até seis anos não trabalha por motivos domésticos.
- No começo, na minha cabeça, seria só aquele momento, até ela fazer um ou dois, mas hoje ela vai fazer quatro e eu não vejo como ainda. Ela tem imunidade muito baixa, qualquer coisa interna no hospital, tem de correr atrás de terapias, ainda está em adaptação na creche e tudo o mais, muitas consultas - conta Jaqueline, que hoje, data que marca o Dia Internacional da Mulher, completa 35 anos.
Além disso, Jaqueline recorda que apenas conseguia pensar em estar com os filhos, o que também motivou sua escolha em
* Para homens, ter mais filhos ou crianças mais jovens não interfere na participação no mercado.
CORDAPELE
* Acor da pele é fator determinante quanto à participação na força de trabalho. Entre as mulheres brancas, 12,8% estão fora por motivos domésticos. Entre as negras, são 16,8%. Os pesquisadores observaram que a proporção de negras fora do mercado por esse motivo é sempre superior àquela entre brancas, independentemente do número de filhos.
ficar em casa. A decisão foi conjunta entre ela e o companheiro,
em razão da remuneração de cada um - ela recebia bem, mas ele recebia melhor.
Assim, a maior parte do sustento passou a prover do marido
- que, atualmente, está desempregado. A dona de casa busca ajudá-lo vendendo bolos de pote, sacolés e crochês, quando consegue, e com o valor do Bolsa Família. Mesmo assim, os custos com a filha acabam sendo altos.
- Hoje, é diferente, se fosse mais fácil, eu gostaria de estar trabalhando - relata.
* “A hipótese mais forte é de que o fato das mulheres negras,
em geral, enfrentarem situação de pobreza mais acentuada do que as mulheres brancas, com menor escolaridade,
faz com que elas vivam em comunidades e dependam mais de creches públicas. Então,
a inexistência de creche e de escola integral para os filhos de mulheres negras faz com que elas não tenham condições de pagar uma babá, um cuidador”,
explica Izete Bagolin, do Pucrs Data Social.

