cotidiano
* FOLHA DE S.PAULO *
QUARTA-FEIRA, 3 DE DEZEMBRO DE 2025 A33
Feminicídio registra recorde em SP,
e brutalidade dos crimes assusta Especialistas dizem que falta de priorização orçamentária e omissão social contribuem para o agravamento; maioria dos casos é cometida por familiares ou companheiros Isabella Menon e Paulo Eduardo Dias sÃo PAULO Na saída de um bar,
Tainara Souza Santos, 31, foi atropelada e arrastada por um carro por cerca de um quilômetro na zona norte de São Paulo, na manhã de sábado A dez quilômetros de distância, dois dias depois, uma mulher foi atingida por diversostiros disparados por seu ex-companheiro na pastelaria onde trabalhava.
Tainara teveas duas pernas amputadas e está hospitalizada. A outra mulher segueinternada. As duas agressões foram registradas como tentativa de feminicídio.
Em 2025, o número desse tipo de crime na capital paulista chegou a 53 casos, o maior da série histórica —o recorde acontece mesmo com dois meses ainda para terminar o ano. Em 20%4,
foram 51casos de feminicídio de janeiro a dezembro, até então o maior número já registrado.
De acordo com um levantamento do Instituto Sou da Paz,
a capital paulista foi o cenário de 1 a cada 4 feminicídios consumados no estado. Na comparação dos dez primeiros meses de 2025 com o mesmo período do ano passado, a alta é de 23%
na cidade. Em relação a 2023, o crescimento foi de 71%.
Os dados reforçam a tendência histórica da violência contra a mulher: a maioria dos casos ocor re dentro de casa (67%) e as vítimassão assassinadas com armas brancas ou objetos contundentes
—instrumentos usados em mais da metade dos crimes no estado.
Coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher no estado,
Adriana Liporoni afirma que os casos de feminicídio geralmente são o desfecho de um ciclo prolongado de violência. Segundo ela, o aumento das ocorrências reflete tanto a intensificação dos conflitos nas relações quanto o aprimoramento na identificação e registro jurídico dos crimes.
Ela afirma que a Lei do Feminicídio, sancionada em 2015, ajudou a melhorar esse reconhecimento, mas que parte do crescimento é resultado também de aumento da violência extrema na sociedade. Para ela, a brutalidade dos atos reflete a dinâmica de controle e posse, com alguns agressores reagindo com violência desproporcional quando a mulher tenta romper a relação.
Antes da mudança na legislação, esses crimes em geral eram registrados como homicídio.
Com a alteração, o assassinato em razão de gênero passou a ser contabilizado separadamente.
Liporoni ressalta que uma lei sozinha não transforma a realidade. “O grande desafio está na prevenção e na capacidade de identificar os primeiros sinais do ciclo violento”, diz.
Ato na avenida Paulista contra a violência de gênero BrunoSantos - 8.mar.24/Folhapress Casos de feminicídio Cidade de SP tem recorde de feminicídio este ano Dados anuais; com exceção de 2025, que casos foram contabilizados até out.
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Estado de SP tem aumento de 12% dos casos Dados de janeiro a outubro de todos os anos
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Fonte: Secretaria de Segurança Pública de São Paulo Malu Pinheiro, do Instituto Sou da Paz, diz que os crimes de feminicídio, muitas vezes cometidos por familiares ou companheiros e fora do ambiente público, exigem intervenções específicas, diferentes das aplicadas pela polícia em outros crimes contra a vida. Ela também aponta que a integração eampliação dos serviços de acolhimento às mulheres em situação de violência é essencial para ajudar as vítimas a romperem o ciclo de abuso.
A brutalidade nas ações de homens que matam mulheres deixaincrédulo até quem possui experiência em se deparar com os mortos. À Folha a fotógrafa técnico-pericial Telma Rocha, que tem maisde3o anos de atuação nas ruasdeSão Paulo e atualmente trabalha no Departamento de Homi-
“Ato de barbárie,
diz delegado sobre episódio A ação de Douglas Alves da Silva, 26, em atropelar e arrastar por 1km uma mulher na manhã de sábado
(29) na zona norte de São Paulo, foi comentada por Augusto Cesar Pedroso Bicego,
o atual delegado titular do 9goº DP (Parque Novo Mundo), responsável pela investigação do episódio.
"Ato de barbárie.
Isso foge do padrão médio da sociedade”,
disse.
cídios e de Proteção à Pessoa da Polícia Civil, detalhouo que vê ao chegar em uma cena de crime.
“[Mulheres] queimadas, amarradas, espancadas, mutiladas.
Mas o que mais me chama a atenção e, muitas vezes me quebra,
são os ferimentos de defesa. Cortes nas mãos, nos braços e unhas quebradas. Isso me destrói, pois chega a passar a cena na minha imaginação. É muito cruel”.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o maior problema hoje no combate à violência contra a mulher é de falta de medidas de prevenção, não de legislação. “A pena para feminicídio é de até 40 anos de reclusão, a maior prevista no Código Penal”, diz a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
A delegada Liporoni cita alguns exemplos de ações que podem ajudar a combater a violência contra a mulher: medidas de prevenção em escolas, o fortalecimento da rede de proteção,
o atendimento especializado e humanizado, o cumprimento de medidas protetivas e a responsabilização dos agressores.
Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas no Instituto Natura, afirma que os principais fatores de risco para mulheresincluema desigualdade de gênero, normas sociais permissivas, falta de acesso a oportunidades e redes de proteção ineficazes. Ela critica a falta de priorização orçamentária tanto pública quanto privada para criar soluções eficazes, como delegacias
24h e campanhas de mudança de comportamento.
Ela alerta também para o aumento de discursos de ódio online contra mulheres. Embora o Brasil tenha regras como a Lei Maria da Penha, ela enfatiza que nem sempre elas se traduzem em proteçãoreal. Para que isso aconteça, afirma, são necessários políticas públicas concretas, recursos e coordenação entre os diferentes níveis de governo.
Morte é suave para punir quem pratica violência contra mulher, diz Lula Maria Luna e Catarina Scortecci IPOJUCA (PE) E CURITIBA O presidente Lula (PT) afirmou nesta terça-feira durante discur so em Pernambuco que “até a morte é suave para punir um cara que pratica violência contra a mulher” e pediu engajamento dos homens na luta contra crimes do tipo.
“O que está acontecendo na cabeça desse animal, que é tido como a espécie animalmais inteligente do planeta Terra,
para tanta violência? Eu acor dei domingo e no café a Janja começou a chorar. De noite,
vendo Fantástico, ela voltou a chorar. Hoje no avião ela pediu para mim: Lula, assuma a responsabilidade por uma luta mais dura contraa violência do homem contra a mulher”, disse o presidente, que foi aplaudido de pé pela plateia.
Ele discursou na cerimônia de expansão da capacidade operacional da Refinaria Abreu eLima, em Ipojuca, ao lado de ministros e políticos aliados, e também da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD).
“Não canso de repetir que eu fui educado por uma mulher, que sempre dizia assim:
meu filho, se você casar, e não estiver bem com sua mulher,
você se separe dela, mas nuncalevante a mão para bater na sua mulher”, continuou Lula,
ao citar casos recentes de crimes no país contra a mulher.
“Esta semana teve um cara que pegou duas pistolas na mão e descarregou contra a mulher, teve outro que matou a mulher e os filhos, botou fogo na casa, teve outro que atropelouuma mulher e a arrastou por um quilômetro. A pergunta que eu faço é o seguinte: o Código Penal brasileiro tem pena para fazer justiça a um animalirracional como esse?”,
afirmou. “Porque, pensando bem, não existe pena para punir um cara desse. Porque até a morte é suave”, disse ele.
No Brasil, foram registrados
1.492 feminicídios em 2024, alta de 1,2% em relação a 2023
e o maior número da série iniciada em 2016, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Nesta terça, Lula pediu um
“movimento nacional dos homens contra os animais” que violentam as mulheres. “Vamos fazer uma campanha forte. Nós precisamos criar um novo homem, uma nova consciência, um novo relacionamento, para que as nossas companheiras vivam conosco se quiserem, porque querem viver, e não por um prato de comida ou porque tem medo de apanhar. Estaluta não é das mulheres. É dos homens”, discursou.

